Justiça ou Exaustão? Como o excesso de notícias sobre violência afeta sua saúde mental
Vivemos um momento delicado e assustador em que notícias sobre casos de violência contra a mulher têm inundado nossas telas e conversas. E, diante de algo assim, é natural sentir indignação, um desejo profundo por justiça e até uma necessidade quase magnética de acompanhar cada desdobramento desses crimes – eu mesma me peguei nesse ciclo nas últimas semanas.
Mas você já reparou como se sente após um tempo lendo comentários e atualizações sobre esses casos?
Muitas vezes, o que começa como uma busca por informação termina em exaustão mental, sentimentos de impunidade e uma sensação de perigo constante. No consultório, vejo como esse ciclo alimenta a ansiedade e o desamparo aprendido.
E por que não conseguimos parar de olhar?
Pela ótica da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), nosso cérebro interpreta essas notícias como ameaças reais. Então, ao consumirmos mais detalhes, tentamos — mesmo sem perceber — aumentar nossa sensação de controle sobre o caos ou prever perigos para nos protegermos. O problema é que o excesso de informação sem ação prática gera o que chamamos de "fadiga por compaixão".
"O problema é que o excesso de informação sem ação prática gera o que chamamos de 'fadiga por compaixão'."
3 Passos para manter-se informada e consciente, mas sem perder a paz:
- Monitore seus pensamentos automáticos: Ao tomar conhecimento de uma notícia trágica, observe se surgem pensamentos como "O mundo é um lugar terrível" ou "Nada adianta, não tem solução". Esses pensamentos generalistas aumentam a ansiedade. Tente equilibrar: "Sim, a situação é grave, mas eu posso escolher como protejo minha saúde mental hoje".
- Estabeleça uma "dieta de notícias": Informar-se é um ato de cidadania, mas consumir detalhes infelizmente não aumenta a justiça, mas apenas a sua angústia. Escolha um ou dois horários no dia para se atualizar e evite telas antes de dormir.
- Transforme impotência em micro-ação: O sentimento de injustiça dói porque nos sentimos paralisados. Se a notícia te mobiliza, tente converter essa energia em algo construtivo: converse com amigas, conheça e apoie redes de promoção, proteção e acolhimento de mulheres na sua região ou fortaleça seus próprios limites pessoais.
Cuidar de você também é uma forma de resistência
Não se sinta culpada por "fechar a aba" ou silenciar uma hashtag. Estar exausta não ajuda a causa... estar equilibrada, sim. E se você percebe que o medo e a tristeza por esses eventos estão excessivos ao ponto de te trazer prejuízos (bloqueios, quebras de rotina, sono perturbado etc), a terapia pode ser um espaço seguro para processar essas emoções e retomar o seu caminho.